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A Avó Isaura

por anajoao2006, em 23.09.10
Julho foi um mês com muitas emoções, mais por parte da mãe do que por parte dos meninos. Mas afinal, este cantinho também é meu…
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No dia 2 de Julho foi o aniversário da Avó Isaura (minha avó, bisavó dos garotos). Fomos tirar uma foto de família, afinal são 95 anos!
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A verdade é que Avó Isaura estava muito velhinha (pudera, com 95 anos) e passados 14 dias faleceu.
Não posso deixar de tentar descrever aqui a Avó Isaura e toda a admiração que sinto por ela, não só por mim, mas também para dar a conhecer aos meus filhos parte da sua ascendência.
A Avó Isaura nem sempre foi avó. Nasceu a 2 de Julho de 1915 na aldeia de Bodiosa, em Viseu. Numa casa pobre e cheia de irmãos, numa altura em que tudo era muito diferente do que é hoje. Nunca chegou a aprender a ler nem a escrever. Era ela quem em cuidava dos irmãos e fazia as refeições. Também vendia pão nas festas das redondezas, levava o milho ao moinho para moer, ia apanhar lenha ao monte para a lareira, etc. Com oito anos já foi ajudar uns vizinhos a plantar batatas (colocava-as no rego e tinha um pauzinho para medir a distância entre elas). Cerca dos 13 anos começou a trabalhar em casa de outras pessoas. Veio para o Porto com 21 anos de idade e começou a trabalhar (serviço doméstico interno) em Vilar do Paraíso. Passados uns meses foi para outra casa onde lhe pagava melhor (mesmo tipo de serviço), conheceu o que viria a ser seu marido e só saiu de lá quando casou. Ela sempre disse que foi muito bom ter vindo para cá, pois veio buscar a felicidade dela. Casou em Dezembro de 1942, com 27 anos, com a Avô António. A primeira filha nasceu sem vida em 1943, a filha Maria Celina nasceu em 2 de Dezembro de 1945 e filha Ana Maria em 15 de Fevereiro de 1948. O Avô António só o conheci sob o olhar de criança / pré-adolescente e é difícil extrapolar esse conhecimento à luz da minha percepção actual. Mas a Avó Isaura fazia questão de enaltecer o quão respeitoso o seu marido foi no início do seu romance / casamento e de facto, o Avô António era um homem sério, que passou muitas dificuldades na vida, mas com uma fibra moral irrepreensível. Tal como a Avó Isaura era um trabalhador. Juntos, construíram a casa onde moraram até ao fim da vida. Se há palavra que os descreve (do meu ponto de vista) é ’trabalhadores’. Não no sentido actual da palavra, de ”viciados em trabalho”, mas no sentido literal. Trabalhavam todo o dia, de sol a sol, sem margem para contemplações. Não havia ”estou cansado”, ”agora não me apetece”, ”vou só dar um saltinho à net”, nada disso, o trabalho tinha que ser feito e fazia-se, pronto!
Assim era a Avó Isaura. Quando eu a conheci já ela trabalhava só no ”campo”. Trabalhar no campo é como quem diz cultivar a horta. Mas era uma horta (que doravante voltará a ser referida como ”campo”) que devia ser vista. Não havia um espacinho disponível. O único espaço com relva eram 2 m2 que não eram de todo dedicados ao lazer, chamava-se a esse rectângulo o coradouro e servia para estender roupa branca a ”corar” ao sol. Todo este trabalho da Avó Isaura, servia não só para abastecer a sua própria despensa, como para abastecer a despensa do resto da família. Esse era o verdadeiro objectivo de tanto trabalho! Lembro-me desde sempre de ter couve galega, couve penca, feijão, batata, cebola, micro-alhos (não sei porquê eram sempre minúsculos), tomate, pimento, alface, salsa, peras, maçãs, ameixas, diospiros e tantos outros. Já para não falar dos ovos, galinhas e coelhos. Até vinho e broa de milho cozida em forno de lenha! Claro que tudo isto implica muito conhecimento, daquele que não está escrito em lado nenhum, mas que com o tempo se entranha nas mãos. A Avó Isaura sabia, sabia tudo o que havia para saber. A mim valeram-me os verões que lá passei: apanhava batatas, uvas que caiam ao chão na época das vindimas, vi arranjar galinhas e coelhos. Na altura não dei valor nenhum, até nem gostava muito do trabalho, mas ainda bem que o fiz. Gostava de ter aprendido mais, mas quem sabe um dia eu própria consigo ter alguma desta sabedoria entranhada nas mãos à custa do trabalho. Na realidade, um dos meus desejos é ter um campo, não só para encher a despensa, como para ter os meus filhos a crescer com um pedacinho de verde debaixo dos pés.
Mas voltando à Avó Isaura, nunca a ouvi queixar-se, a não ser do preço das coisas e da falta de moral e maus costumes dos tempos modernos. Trabalhou no campo até não poder mais e quando digo não poder mais é de uma forma literal, andava dobrada ao meio e agarrada a uma bengala (ou à enxada). Não vou, com certeza, ser capaz de descrever a força da Avó Isaura e tenho pena, pois foi talvez a pessoa mais forte e industriosa que eu conheci. A Avó Isaura era muito crente e com princípios morais muito rígidos, fortemente enraizados pelos anos. Discordamos muitas vezes, mas nunca deixamos de nos amar.
A Avó Isaura era uma lutadora, sem medo do que lhe estava reservado. No dia da sua morte estive com ela por volta das 13h (faleceu pelas 17h). Estava sentada no sofá, plenamente tranquila apesar de uma noite muito má. Perguntou pelos bisnetos, pelo João, pela Tânia e até comentou em tom de brincadeira o bom aspecto do meu irmão, que estava comigo. Estava cheia de dores, mas dizia: ”que chatisse, não estou bem em posição nenhuma… mas, o que é que eu hei-de fazer, é assim que tenho que ir!”. É verdade que nunca estive tão perto da morte, por isso não sei se é normal esta tranquilidade quando se sente a nossa hora a chegar. Mas seja como for, a minha admiração pela Avó Isaura só cresceu. Se eu já conhecia o valor da Avó Isaura, nesse momento tive a confirmação da sua coragem e valentia inabaláveis até ao final. Eu gostava de ser mais como a Avó Isaura, mas a verdade é que não sou assim, forte e corajosa. No dia em que eu precisava mesmo de o ser não fui capaz. Nunca me vou perdoar o apoio que não consegui dar à minha mãe quando a sua própria mãe partiu. À minha mãe, que sempre esteve (e está) disponível para me apoiar, eu não fui capaz de manter a compostura e dar-lhe o meu ombro para chorar. Como eu gostava de ser mais como a Avó Isaura… mas agrada-me saber que tenho sangue deste a correr-me nas veias.

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publicado às 17:54


1 comentário

De RIta Catita a 24.09.2010 às 11:23

Minha querida amiga Ana: as únicas palavras que tenho para dizer é de que as lágrimas cairam suavemente pela minha cara ao ler estas tuas palavras...
E só posso dizer que tenho por ti uma imensa admiração e que tenho muito orgulho em ter uma amiga como tu... pronto lá estão elas a vir outra vez...Beijo grande amiga, até sempre!

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